Escola do Encontro

Escrevi este texto para a exposição de Paloma Ariston, que inaugura 3 de fevereiro de 2011.

ESCOLA DO ENCONTRO

Conheci a Paloma em 1999, em um encontro de artistas, no antigo Teatro Casagrande, no Leblon. Nesse ano ela estava começando a pintar e eu ingressando na Escola de Belas Artes.

Desde então, ficamos muito amigos. Acompanhei todo o processo de desenvolvimento da linguagem dela, conheci a família, sua mãe, sua irmã, seu pai. Ela sempre pintou cenas copacabanísticas, suas acrílicas revelam banhos de mar, famílias farofeiras, ratos de praia, encontros caóticos.

Aí, mais tarde um pouquinho ela começa a fazer videoarte. Era um tempo que não existia youtube, a maneira de mostrar as criações em vídeo era inscrevendo em mostras, festivais, encontros...

Vi quando ela começou a levar sua câmera vídeo 8 pra todo lado, ela tinha essa coisa de filmar os vernissages (ou seria as vernissages?), e eu sempre dizia: isso aí vai ser legal de ver daqui a alguns anos, ver como é que a gente se vestia, com quem andava, por onde andava. Quem está vivo ainda? Quem já foi embora da festa?

Filmar gente é sempre uma complicação: tem gente que não gosta, tem gente que adora... tem gente que adora e depois não gosta mais, tem gente que odeia e depois não liga. Mas no século XXI filmar é essencial. O ato de ver só se completa com o registro. Mas uma câmera na mão de uma pintora não é um objeto de filmar, mas um pincel digital, com o qual ela desenha o tempo.

Nesse meio tempo, a Revolução Digital explodindo, os computadores ficando mais acessíveis e os encontros sendo substituídos por mensagens de texto, emails, lembretes. O sorriso vira um ícone representado por dois pontos e um fecha parêntese. O individualismo se tornando mais real e mais próximo. O contato humano sofreu uma transformação grande, mas ao mesmo tempo as artes tendem sempre a exaltar o contato humano. O Espaço Sergio Porto, onde Paloma instala sua primeira exposição individual, foi (e ainda é) palco do importante encontro de poesia da cidade, o CEP 20.000. No centro da cidade, desde 2005 a galeria de arte A Gentil Carioca promove deliciosos encontros, nos quais vemos e falamos de arte, bebemos cerveja e dançamos boa música na rua.

Em 2009 o Bob N fez uma exposição emblemática no MAM, na qual todo mundo tirou a roupa e dançou ao som do La Rica, com a Xuparina como mestre de cerimonial.

Agora no comecinho de 2011, o Ernesto Neto lidera uma coisa que se não me engano é algo semelhante à fundação de uma Igreja, enfocando na realidade nossa: a Arte é nossa religião. É o Alalaô, que tem reunido fiéis no Arpoador pra fazer aquilo tudo que a gente gosta, sem nóia. Quem inaugurou o primeiro vernissage/culto foi o Guga Ferraz, com 400 pipas no céu em louvor ao Rei Hórus, que se punha a mergulhar no mar.

Nada substitui o momento da vernissage (ou do vernissage) porque é quando estamos juntos, dá a impressão de que esse é o propósito de toda nossa Arte. Mercado é um detalhe frente a tanta alegria de estarmos juntos fazendo Arte. Vivemos pra mostrar o que fazemos e é o compartilhamento dessas idéias que fazem nossas invenções funcionarem.

A exposição da Paloma se baseia na apologia do encontro. Eu quis mergulhar mais na viagem dela, e pensei que ela teria invertido os pontos de vista da exposição: os espectadores são os objetos e as paredes são os olhos, então nós somos o que as pinturas vêem quando estamos no cubo branco. Lembrei daqueles quadros das casas assombradas dos desenhos animados, pinturas de retratos que quando passam em frente a ela, os olhos da pintura vão seguindo.

Paloma pintora dá seqüência ao mergulho histórico do pintor, que começa pintando tradicionalmente com pincel, depois o Yves Klein pega as mulheres e as mergulha na pintura, depois o Pollock se mergulha na pintura e pinta de dentro do quadro, depois o Helio Oiticica mergulha os espectadores em seus penetráveis, que são como pinturas feitas espaço, com pessoas dentro, se movimentando.

Paloma mergulha tudo na pintura, e acaba por diluir completamente a pintura. O vernissage (ou a vernissage) é a coisa. Os convidados estão ali para ser a composição que irá se fazer durante o tempo da exposição. Cada movimento, cada ação que acontece ali é obra. E deve ser mantida como tal.

Aí eu falei pra Paloma: “Pintura, escultura, instalação, vídeo... tudo isso a tsunami leva, não é mesmo?” E ela responde com Marx na ponta da língua: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. E completa: “A Arte dissolve-se na vida cotidiana”.

Então vivamos o fluxo, não importa se é o vernissage ou a vernissage, o que importa é que estaremos lá.

A herança mais valiosa da nossa geração de artistas é o espírito agregador.

Um beijo, e boa (ou bom) vernissage a todos. Divirtam-se!

Fernando de La Rocque, artista plástico. 31/01/2011

1 comentários:

Thais disse...

Texto lindo,doce, sicero, puro! Concordo com voce.